Americanos querem acabar com o PIX? Bolsonaros são "traidores da pátria"? Como o regime petista e a militância de redação enganam o público
Leia nossa newsletter de hoje e fique por dentro dos destaques de Terça-Feira | 02.06.26
Americanos querem acabar com o PIX? Bolsonaros são "traidores da pátria"? Como o regime petista e a militância de redação enganam o público
O Descondenado encontrou seu novo cavalo de batalha eleitoral. A narrativa, repetida em cadeia nacional e amplificada pela militância de redação, é simples e mentirosa: "os Estados Unidos querem acabar com o PIX". A frase é perfeita para o palanque. Mexe com o brio nacional, transforma uma disputa comercial técnica em afronta à soberania, e empacota Lula como defensor do povo contra o imperialismo estrangeiro.
Só tem um problema. É falso.
Vamos aos fatos, que estão em documento público, em inglês, no site do próprio USTR, o representante comercial dos Estados Unidos.
O que os EUA realmente pedem
Em julho de 2025, o USTR (Office of the United States Trade Representative, o escritório do representante comercial dos Estados Unidos) abriu uma investigação contra o Brasil sob a Seção 301 do Trade Act de 1974. A investigação busca determinar se práticas do governo brasileiro relacionadas a comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, interferência no combate à corrupção, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal são injustas ou discriminatórias contra o comércio americano.
Repare na lista. PIX é um item entre vários. E o pedido americano sobre o PIX não é "acabar" com nada. A reclamação é que o PIX combina funções regulatórias e operacionais dentro do Banco Central, criando desequilíbrio competitivo contra operadoras privadas americanas como Visa e Mastercard. Ou seja, o que está em jogo é acesso ao mercado por empresas americanas, não a destruição do sistema.
Na prática: os EUA querem que empresas americanas possam competir no mercado brasileiro de pagamentos. O Estado brasileiro criou um sistema estatal que é, ao mesmo tempo, regulador e operador. É o juiz que também joga. E essa concentração é o alvo da reclamação.
Você pode achar que o PIX é ótimo. Pode até concordar que o Banco Central acertou. Mas dizer que "os EUA querem acabar com o PIX" é mentira deliberada, fabricada para fim eleitoral. O que os EUA querem é que empresas americanas tenham acesso ao mercado de pagamentos em condições de paridade, e não que o próprio Estado concentre as funções de regulador e operador.
O que o regime esconde
O Descondenado repete "PIX, PIX, PIX" justamente para não falar do resto da lista. E o resto da lista é constrangedor para o regime.
A investigação americana trata de decisões judiciais brasileiras contra plataformas americanas. O USTR afirma que determinadas decisões dos tribunais brasileiros impactam negativamente plataformas digitais americanas. Traduzindo: a censura promovida pelo Judiciário, as ordens de bloqueio, as multas milionárias, as exigências de derrubada de conteúdo sem devido processo. Tudo aquilo que aqui se chama eufemisticamente de "regulação das big techs" e que na verdade é o complexo industrial da censura exportando seus efeitos para fora.
A investigação trata de reversão no combate à corrupção. Esse ponto desaparece por completo da imprensa brasileira. O documento americano lista expressamente a interferência no enforcement anticorrupção como prática sob escrutínio. Vale lembrar quem desmontou a Lava Jato e quem anulou condenações.
A investigação trata de etanol. O USTR considerou que a tarifa brasileira de 18% sobre o etanol americano é injustificável e levou à queda das exportações americanas para o Brasil. Aqui está o ponto que destrói a narrativa de "agressão unilateral contra o Brasil": é o Brasil que mantém barreira tarifária contra o produto americano. O Brasil tarifa o etanol dos EUA. Os EUA reclamam. Quem começou?
A maior parte das importações foi isentada
Agora o dado que a militância de redação enterra.
A tarifa de 40% imposta em julho de 2025 sobre produtos brasileiros foi, em sua maior parte, revogada. Em novembro de 2025, Trump assinou ordem executiva eliminando a tarifa sobre uma vasta lista de produtos. A orientação da alfândega americana confirma que 238 classificações da tarifa e mais 11 categorias de produtos agrícolas foram isentadas das tarifas sobre o Brasil. Café, frutas tropicais, sucos, bananas, laranjas, tomates e carne bovina deixaram de estar sujeitos à tarifa adicional de 40%.
A tarifa é arma de negociação. Com todo mundo
Esse é o ponto central que a narrativa eleitoral precisa esconder a todo custo.
A tarifa, no governo Trump, é instrumento de negociação comercial aplicado ao planeta inteiro. Sobre o Brasil incidiram, em 2025, uma tarifa universal de 10% imposta em abril sob o IEEPA, além de outras medidas. A tarifa de 10% de abril, vale repetir, foi aplicada a todos os parceiros comerciais dos EUA. Não é um castigo contra o Brasil. É a política comercial padrão da Casa Branca contra o mundo.
A própria Seção 301 que o regime apresenta como perseguição já foi usada antes. Semanas antes da abertura da investigação contra o Brasil, o USTR já havia sinalizado os sistemas de pagamento públicos da Índia (UPI) e da Indonésia (QRIS) em seu relatório de barreiras comerciais. Brasil, Índia, Indonésia. O alvo é qualquer país que erga barreiras a empresas americanas. O Brasil não é vítima especial. É mais um nome numa lista.
E agora, em junho de 2026, o desfecho. O USTR propôs uma tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, mas com isenção para itens como café, suco de laranja, cacau e alguns cortes de carne. A proposta foi aberta a comentário público até 1º de julho de 2026, com audiência marcada para 6 de julho, e o prazo legal para ação responsiva é 15 de julho de 2026. Continua sendo o que sempre foi: instrumento de pressão dentro de uma negociação em curso, com prazos, audiências e portas abertas.
A inversão
Junte as peças.
Os EUA pedem acesso ao mercado de pagamentos, não o fim do PIX. Reclamam da censura judicial, da reversão no combate à corrupção, das tarifas brasileiras sobre o etanol. A maior parte das tarifas foi revogada por razões de política interna americana. E o instrumento tarifário é aplicado ao mundo inteiro, não ao Brasil em particular.
Nada disso tem a ver com a direita brasileira. A direita não redige relatórios do USTR. A direita não decide preço de café no supermercado de Ohio. A pauta da investigação é comercial, americana, e antecede qualquer movimento político brasileiro.
Mas o regime precisa de um inimigo externo. Precisa transformar uma disputa comercial banal em cruzada nacional. Precisa que o eleitor acredite que existe um complô estrangeiro contra o PIX (implementado no governo Bolsonaro, vale lembrar), contra o seu bolso, contra o seu país. E para isso conta com a militância de redação, que reproduz a versão oficial sem ler o documento original, sem checar a lista de isenções, sem mencionar a censura ou a corrupção.
Na verdade, o que está em curso é manipulação eleitoral. O Descondenado inverte os fatos porque a verdade o desfavorece. A investigação americana não é sobre o PIX. É sobre tudo aquilo que o regime fez e finge que não fez.
Vale registrar o tom. Nesta terça-feira, dia 2, ao culpar a família Bolsonaro pela proposta tarifária, Lula chamou Flávio e Eduardo de "traidores" e "vendilhões da pátria" e foi além: comparou-os ao delator de Tiradentes e sugeriu que mereciam o mesmo destino, o enforcamento. Na pressa de fabricar o inimigo, errou até a história, pois o delator de Tiradentes nunca foi enforcado, recebeu pensão da Coroa e morreu de causas naturais. Quem subiu ao cadafalso foi Tiradentes. Mas o detalhe factual é o de menos. O que importa é o gesto: o chefe do regime evocando a forca contra adversários eleitorais, em praça pública, enquanto a militância de redação trata o episódio como mais uma "saída de tom".
O eleitor que ler o documento em inglês descobre a fraude em cinco minutos. O problema é que o regime aposta, com a ajuda da imprensa, que ninguém vai ler. Ou seja, eles contam, como sempre, com a desonestidade da imprensa, e com a ignorância do eleitor.
O que Moraes disse em em Lisboa sobre as Big Techs
Alexandre de Moraes acertou o diagnóstico. Esse é o ponto de partida. As Big Techs não são neutras, os algoritmos não são inocentes e o poder de moldar percepção em escala massiva é real. Gilmar Mendes, ao falar em tecnofeudalismo e servidão digital, foi na mesma direção. Até aqui, o diagnóstico está certo. O problema começa quando se olha para o alvo escolhido e para o remédio proposto.
Na narrativa que hoje domina parte do Supremo, as plataformas teriam sido instrumentos de ascensão do populismo de direita, da radicalização conservadora e da corrosão institucional. Por isso, dizem eles, seria preciso regular conteúdo, limitar alcance, apertar plataformas e ampliar o poder do Estado sobre o debate público. É aí que a inversão aparece.
Houve manipulação massiva das redes, sim. Só que ela não operou a favor da direita. Operou contra ela.
O primeiro dado é quase primário: o viés ideológico interno das grandes empresas de tecnologia. Não estamos falando de neutralidade que se perdeu no caminho, mas de uma cultura política que já estava ali desde o início, organicamente alinhada ao campo esquerdista, ao Partido Democrata nos Estados Unidos e a uma visão tecnocrática globalista de mundo. Isso apareceu em doações, em falas públicas, em reuniões internas, em critérios opacos de moderação e, depois, nos arquivos internos revelados quando esse sistema começou a ser exposto.
O segundo dado é ainda mais importante: a censura não começou por imposição estatal. Ela começou por iniciativa das próprias plataformas, muitas vezes em sintonia ideológica com os setores que hoje se apresentam como reguladores virtuosos. Depois veio a pressão dos governos, das agências, das estruturas de checagem e do aparato burocrático que percebeu o potencial daquela máquina. Ou seja: primeiro houve alinhamento cultural. Depois houve captura política.
No Brasil, esse processo ganhou uma feição ainda mais grave, porque o protagonismo deixou de ser das plataformas e passou a ser do Estado. Não é a plataforma que, sozinha, decide ocultar, remover ou suspender. É o ministro que manda. É a corte que impõe. É a engrenagem institucional que transforma a regulação em instrumento de contenção de um campo político específico.
É por isso que a fala de Moraes, no fundo, soa autobiográfica às avessas. Ele descreve corretamente o risco de um poder concentrado sobre a circulação das ideias, mas ignora que, no Brasil, esse poder foi exercido de forma muito mais agressiva pelo próprio aparato estatal. Perfis suspensos por ordem judicial, conteúdos ocultados, ordens sigilosas, denúncias de perseguição interna, processos que se voltam contra quem denuncia a máquina — tudo isso mostra que o problema brasileiro não é uma plataforma descontrolada agindo sozinha. É a fusão entre plataforma e Estado, com prevalência do segundo.
A justificativa formal é sempre a mesma: proteger a democracia, as instituições, a ordem pública. Mas, na prática, a fórmula vem servindo para outra coisa: confundir instituições com seus ocupantes e transformar crítica dura em ameaça ao regime. A partir daí, qualquer cobrança mais aguda a ministros, cortes ou estruturas centrais do sistema passa a ser tratada como desinformação, abuso ou calúnia, enquanto o poder de censura vai sendo naturalizado.
E é justamente por isso que o remédio proposto é pior do que a doença. Dar ao Estado mais poder para regular conteúdo não corrige o viés das plataformas. Apenas transfere o centro da censura para um ente ainda mais perigoso, porque contra a plataforma ainda é possível migrar, sair, buscar alternativas. Contra o Estado, não.
A saída mais racional não é permitir que governos decidam o que pode ou não pode circular no debate público. A saída é impedir discriminação ideológica por parte das plataformas, tratá-las como utilidade pública no que diz respeito à circulação de conteúdo e restringir o arbítrio de ambos: empresa e governo. O limite deve continuar sendo aquilo que já é crime em lei, não categorias elásticas como discurso de ódio, desinformação ou ataque às instituições, que acabam moldadas conforme a conveniência política do momento.
No fim das contas, Moraes acertou a doença. As Big Techs são, sim, um poder perigoso. Mas errou o alvo, porque quem mais foi censurado não foi a esquerda, foi a direita. E errou o remédio, porque propõe, como cura, a ampliação da própria enfermidade: mais concentração de poder sobre a palavra.



Leandro você presta um serviço inestimável ao Brasil
Precisamos e tirar esse sr, emais alguns,para podermos ter uma corte verdadeira que trabalhe para o bem do povo!!